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matriz2006

matriz2006

23
Mar08

Boa Páscoa

 


A Manhã da Liberdade Despontou

 


Naquela Sexta-feira chamada “Santa”,
- na verdade a mais desumana e cruel de todas as Sextas-feiras,
- somente santificada em virtude da dialética cristã encará-la como um ato de
obediência nascido da mais pura liberdade humana,
sacrifício necessário para a redenção da carne...
Naquela Sexta-feira , quando seu gemido atravessou os céus na esperança
de chegar ao Pai - “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
- , afundamos em abismos de desamparo e orfandade.
As pilastras do templo de Jerusalém desdenharam da segurança da Lei.
Rasgou-se o véu do Santuário de nossas certezas.

 

Era a hora nona e ninguém mais sabia de nada,
ninguém mais queria saber de nada.
A enxada parou no ar.
O agricultor não sabia mais porque plantava.
As donas-de-casa interromperam seus afazeres sem saber por que
e para quem cozinhavam.
As crianças desistiram das brincadeiras e se amuaram detrás das portas.
As ovelhas se dispersaram, trêmulas, à procura de abrigo.
Uma angústia abissal corroia tudo o que até então vivia.
A morte, embriagada de prazer, gargalhava por esquinas e becos
anunciando a chegada do seu reino de escuridão e medo.

Nós estávamos por perto.
Atravessamos com Ele o túnel escuro da humilhação e do desespero.
Sentimos nossa carne retalhada pela ponta aguda do chicote.
Quase morremos de sede.
Cuspiram em nossa cara e balançaram
a cabeça diante de nosso rosto desfigurado.
Zombaram de nossa feiúra. No dia amargo em que plantamos o corpo
de nosso amigo naquele jardim nós também fomos sepultados.
Mas não sepultaram nossa esperança e nossos sonhos.

Venho agora lhes anunciar uma grande alegria:
a manhã da liberdade despontou.
Estamos, com Ele, livres das correntes da morte.
Ninguém mais poderá nos dispersar, escravizar, enganar,
zombar dos nossos sonhos.
Hoje a justiça e a paz se abraçam e nos convidam a festejar porque
o Senhor quer dançar conosco o bailado interminável da vida.
Ressuscitou como disse.

Quem chorava a perda do ser amado, nunca mais chorar.
Quem se perdeu nos desvãos do individualismo,
quem vivia trancado em casa ruminando lembranças,
agora não vai perder uma festa.
Quem vivia com o cenho franzido agora vai sorrir como um pândego.
Quem estava sem tecto e sem família, vai encontrar o rumo de casa
e vai chegar dizendo: cadê meu abraço, meu beijo?
Porque o Senhor está vivo e ninguém poderá novamente matá-lo.
Esse gosto de vida jamais se despedirá de nosso paladar.

Gritemos ‘aleluia’. Cantemos ‘aleluia’, roucos ou desafinados, cantemos.
Esse grito travado em nossa garganta agora ecoa
por todos os vales e campinas, desertos, cerrados e chapadas.
Portas e janelas de edifícios luxuosos e barracos nas favelas se abrem
para ver de onde eclode esse chamado à vida.
As plantações, os peixes, as estrelas, os animais e os humanos todos
querem se unir a nós nesse grito de desforra:
ó morte, onde está tua vitória?

Feliz Páscoa para as crianças, para os adultos,
para os jovens e idosos.
Feliz Páscoa para os bêbados e drogados.
Feliz Páscoa para as vítimas das guerras.
Feliz Páscoa para os meninos de rua e para os desempregados,
para todos os excluídos da sociedade e da Igreja.
Feliz Páscoa para os enfermos.
Feliz Páscoa para todos os irmãos de outros credos
e de outras religiões.
Feliz Páscoa para ateus e crentes.
Feliz Páscoa para os que temem o Senhor
e para os que o desprezam.
Feliz Páscoa para todos vocês,

meus companheiros no anúncio da Ressurreição.

 

Pe. Antônio Damásio