Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

matriz2006

matriz2006

25
Mai10

Póvoa de Varzim

Póvoa de Varzim


Tropecei neste texto um destes dias num dos meus passeios diários pela internet e não hesitei em transcreve-lo aqui no meu blog. É digno de leitura. 0-poveiro.blogspot.com foi onde me deparei com estas palavras tão especiais.


Poveiridade

Eu não nasci na Póvoa. O implacável Bilhete de Identidade denuncia tudo: o meu nome e ascendência, solteiro, um metro e oitenta e sete, nado a oito de Abril do ano da graça de setenta e nove, sem indicações eventuais, e pumba, naturalidade Coimbra, freguesia de Santa Cruz.

E, no entanto, quilhado está quem me questione a poveiridade. Respondo-lhe logo com um «aie!» preambular, enrouqueço as cordas vocais imitando os pescadores, que as têm danificadas pelo ar marítimo, solto meia dúzia de caralhadas, e assim demonstro que tenho a barba tão rija quanto frio é o mar que nos enrola e à nossa areia.

Pois a Póvoa é o mar e o mar é a Póvoa, já se sabe. E o mar da Póvoa não é um mar como os outros, indiscutível também. É um mar viril, de macheza, bruto como as casas, vivo nas marés, inclemente na morte, um mar de guelra, portanto. Ostenta o brio nas cristas das ondas que reluzem às tardes de Verão, arqueja e rosna de mau feitio na bruma da noite. De caminho, exala maresia por todos os poros. O poveiro banha-se nas suas águas, aspira-lhe os eflúvios, e, natural e necessariamente, herda-lhe as qualidades. Não tem medo do carrasco, mas respeito pelo irmão.

O poveiro que se preze suporta mal a distância do mar. É um sufoco, uma opressão, uma incompletude. A primeira vez que, desesperado por uns meses de separação, lá consenti em abafar a rebarba numa praia fluvial, ia morrendo de indignação e contrariedade. Que tísica e desengraçada comparada com a robustez altaneira daquela por que ansiava! Fraco, insignificante, diminuto sucedâneo!

Ser-se de uma terra é como ser-se de uma pátria. É um orgulho mal mascarado, uma estirpe que nos determina, um amor (como todos) irracional. Mas é, mais do que ver nela um infinito paraíso de qualidades inesgotáveis, ter-lhe o apreço de lhe querer bem, e a revolta pelos males que lhe surgem, os ostensivos e os subreptícios.

(...)